terça-feira, 28 de setembro de 2010

“BURNING SUN” - Sol Que Queima (de Vitor Hugo Gali)

O porto da cidade de Santos estava lotado como sempre, era 1892 e as pessoas se apinhavam nas ruas procurando por um conhecido, muitos iriam para São Paulo, em busca de nova vida. Dentro do automóvel dois homens mantinham uma conversa, sem muito prestar atenção um ao outro enquanto o motorista tentava desviar das pessoas nas ruas. No meio dessas pessoas uma garota com olhar assustado assistia tudo a sua volta sem realmente enxergar algo. O motorista desviou de um pequeno garoto, mas não foi hábil ou rápido o suficiente e quase atingiu a moça, que com o susto caiu no chão, causando uma comoção ao redor, que logo foi esquecida.

Fernando tenha cuidado.
Desculpe Senhor Bernardo, mas essas pessoas parecem não ter noção do que é ser atingido por um automóvel.
Pare o automóvel – a exigência do homem sentado em postura rígida ao lado de seu patrão não foi proferida em voz alterada ou elevada, mas fez com que Fernando se arrepiasse e parasse o carro sem ao menos esperar pó uma segunda ordem de Senhor Bernardo.
Algo errado caro Damen? – mesmo sem dedicar um olhar ao homem ao seu lado Damen podia sentir seu nervosismo, podia cheirar seu medo, se dedicasse apenas um olhar ao senhor a seu lado apenas constataria o que já sabia.
Nada errado, mas preciso descer aqui, tenho negócios a resolver. Sigam em frente sem mim, encontrarei o senhor no Hotel – assim dizendo desceu do automóvel.
Mas Damen, tenho certeza de que posso ajudar em algo, ainda mais se tratando de negócios.
Tenho certeza que sim, mas sua ajuda não é necessária – sem dedicar qualquer outro comentário saiu e se perdeu na multidão.

Aquilo não era o que esperava a garota que estava curvada ainda no chão. As pessoas passavam ao seu redor sem pararem para ajudar, não existiam palavras de conforto. Por um momento deixou que todas as emoções fluíssem por seu corpo, perdera seus pais na viagem de navio para essa nova terra chamada Brasil, onde prometiam um futuro, comida e trabalho, além de um lugar para viver. Seus olhos ardiam e tinha certeza que estavam cheios de lágrimas, mas não podia chorar, não iria chorar. Aquele sonho que ela e seus pais tinham construído desde que deixaram a Itália e a fome, agora parecia tão distante e impossível.
— Não chore ­— a voz interrompeu seus pensamentos, fazendo a garota levantar a cabeça para seu locutor — Não chore, pegue! — Assim dizendo estendeu um lenço branco puro.
— Estou suja. Vou sujar seu lenço, não posso aceitar.
— Não, me importa que o lenço se suje, mas me importa que derrames lágrimas. Com suavidade segurou o rosto jovem e delicado, escondido atrás de sujeira e limpou as lagrimas que ela tentava conter. Damen olhava os olhos da garota, fascinado, não havia dúvidas era ela, seus olhos diziam o que seu coração já sabia. Seu destino finalmente tinha voltado. Como se chama?
A garota o olhou, desconfiada, nada tinha sido fácil em sua vida, não podia confiar em estranhos, por isso permaneceu muda.
— Não se preocupe, não vou fazer-lhe mal, Me chamo Damen Auguste, mas adoraria que me chamasse apenas de Damen.
— “Mi” nome Marina, desculpe, mas meu português ainda não é “baum
            — B o m — Damen pronunciou cada sílaba ao dizer a palavra.
            Marina o olhava sem entender.
            — Você pronunciou a palavra de forma incorreta, o certo é B o m. — Marina corou fortemente e abaixou o olhar.
            — Hei, não precisa se envergonhar. Tenho certeza que em pouco tempo irá falar melhor que um nativo, você parece ser uma garota muito esperta.
            — Sim, sou esperta, sei ler e escrever. Papai me ensinou, e a mamãe também. — Seus olhos perderam o brilho adquirido com o elogio.
            — E onde está seu “papá” e “mamma”?
            — A febre os levou. — Disse em um sussurro seguido de um soluço estrangulado. — Ela tentou me levar também, mas sou forte, sempre fui.
            — Tenho certeza de que estão em um lugar melhor, cuidando de você.
            — Todos dizem isso. — Disse olhando dentro dos profundos olhos de Damen — Só queria que eles estivessem aqui.
            — Eu sei, é difícil perder alguém que se ama. — Em seu rosto se via a expressão de pesar, mas ao mesmo tempo de amor.
            — Você já perdeu alguém? — A expressão de Damen se endureceu e o único sentimento que demonstrava agora era de derrota.
            — Sim.
            — Desculpe.
            — Não se preocupe. Agora porque não nos levantamos do chão antes que alguém pense que somos loucos. — Falou com um sorriso preguiçoso que fez o coração da Marina bater mais rápido.
            Segurando os ombros magros e delicados de Marina, Damen a ajudou a levantar do chão. Mas mesmo estando de pé, ele não deixou de tocá-la. Segurava seu ombro de forma firma e macia. Ao lado dele Marina se sentia segura e estranhamente querida, de forma como não se sentia há muito tempo.
            — E o que a traz a cidade? — indagou mesmo já desconfiando, pelas vestimentas simples ela teria vindo para trabalhar em uma das fazendas de café das regiões produtoras.
            — Iríamos trabalhar colhendo café, mas agora não sei o que fazer. Papai não está aqui e era ele quem cuidava de tudo.
            — Pois agora sou eu quem irá cuidar de você. — Afirmou firme.
            — Não, posso aceitar, eu nem conheço você.
            — Acredita em destino? — A pergunta a surpreendeu, acreditou que ele tentaria convencê-la.
            — Sim, mas...
            — Você é o meu destino. Isso é tudo que precisa saber por enquanto, com o tempo você irá entender tudo. Agora vamos sair daqui e encontra um local adequado para te hospedar. — Assim dizendo começou a andar puxando-a pelo braço.
            Marina queria contestar, queria dizer não, mas estava tão cansada, com fome e medo. Ter alguém cuidando dela parecia tão “baum”. Não, “bom”, essa era a pronuncia. Enquanto caminhava tinha um sorriso de uma criança em seus lábios. E Damen admirando a cena tudo em que podia pensar era provar o sabor único e tão proibido desses lábios. Pensando nisso mostrou um sorriso terno em seus lábios.

            Depois de hospedá-la em um Hotel respeitável da cidade, Damen a encaminhou para o quarto, abriu a porta e entrou com ela. Virou e olhou direto em seus olhos.
            — Tenho que resolver alguns negócios na cidade. Deixei um possível sócio me esperando em outro Hotel. — Interrompeu-a quando ela tentou protestar algo. — Não se preocupe estarei aqui o mais depressa possível, antes do entardecer. Quando eu sair do quarto tranque a porta.
            Damen se dirigiu a porta e segurou a maçaneta. Parou e pareceu pensar em algo. E em um instante voltou-se para ela e a atraiu para seus braços e a segurou em um carinhoso abraço. Enterrou seu nariz nos cabelos de Marina e aspirou o perfume de seus cabelos.
            — Vou sentir sua falta. Prometo voltar o mais rápido possível.
            Assim dizendo partiu.

            Sentada na cama do Hotel Marina não podia deixar de pensar em Damen. Parecia incrível a ligação que sentia por ele, um estranho. Tinha certeza de nunca o ter visto na vida, mas mesmo assim seus olhos lembravam-na de algo. Seu coração batia mais rápido toda vez que se lembrava do timbre de sua voz. De como demonstrou carinho e devoção por ela, mesmo sem saber nada a seu respeito. Ele havia dito que era seu destino, isso ainda á deixava confusa, imaginando o que ele queria dizer. Bom ele também disse que com o tempo ela iria entender, esperava que fosse logo.
            Uma batida soou na porta. Alegre Marina se levantou e seguiu imaginando que Damen fora rápido, assim como prometera.
            A última coisa que viu depois de abrir a porta foi um par de olhos furiosos.

Damen virou a esquina e avistou o Hotel, a reunião tinha demorado mais que o esperado, mas finalmente voltaria a vê-la. Fazia tanto tempo que esperava por ela e se asseguraria que dessa vez ela continuasse com ele. A noite estava chegando, no céu já era possível ver a lua, uma linda LUA AZUL, apesar do sol. Ao atravessar as portas do Hotel Damen notou a confusão dentro do estabelecimento. Pessoas formavam um circulo em volta de algo. Damen aproximou-se e falou com um homem já de idade.
            — O que está acontecendo?
            — Uma jovem, parece que teve um acidente e caiu da escada. Pobre moça tão jovem.
            O coração de Damen já disparava assim que se aproximou mais para ver o rosto da jovem. Marina. Era Marina. Algo se quebrou dentro dele, cerrou os dentes tentando conter a dor que sentia.

Damen correu para abraçá-la. Chorou em silêncio sua dor. Lá fora o dia morria levando, mais uma vez seu amor. Mas amanhã ele nasceria novamente e talvez dessa vez seja PARA SEMPRE.



autor: Vitor Hugo Gali



6 comentários:

Vitor disse...

Ai mas que vergonha, hahahah


BjS

Gi. disse...

Ei, Drina... sempre aparecendo e dessa vez eles mal tiveram tempo de se conhecer direito... gostei!
;) bjs***

Paola Patricio disse...

Que otimo o conto!!!
O meu ja esta la tbm!!

Bjooos

Bruna disse...

Oi Gi!
Obrigada!! O conto já está no meu blog, passa la depois.

=*

Paola Patricio disse...

Claro que nao tem problema..bjoos

Camila Lemos disse...

Nossa, Adoreeii o conto!
Está muito bom Vitor!